Via Láctea – Olavo Bilac – textos e comentários

Publicado em 24 de maio de 2017 na categoria

VIA LÁCTEA – OLAVO BILAC
ANÁLISE
PROF. SINVAL SANTANA

– Olavo Bilac – Biografia

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, natural do Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865, foi jornalista, contista, cronista e poeta brasileiro do período parnasiano. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras, faleceu em 28 de dezembro de 1918, como um dos mais celebrados poetas brasileiros.

– Olavo Bilac – Obra

Poesias – 1888, Crônicas e novelas – 1894, Crítica e fantasia – 1904, Conferências literárias – 1906, Dicionário de rimas – 1913, Ironia e piedade, crônicas – 1916, Tarde – 1919.
Principal poeta do Parnasianismo, um dos principais de toda a poesia brasileira, Olavo Bilac publicou os 35 sonetos que compõem o livro Via Láctea no volume de Poesias em 1888. Olavo Bilac não se prendeu à ortodoxia do Parnasianismo, que pregava a Arte pela Arte, a impossibilidade, a perfeição formal como o fim maior da obra poética. Sua obra apresenta poesia descritiva e formal ao gosto parnasiano, como também poesia nacionalista, próximo do que o Romantismo produziu, passando pela poesia satírica, erótica, histórica.

– Olavo Bilac – Via Láctea

Os sonetos de Via Láctea são impregnados de lirismo, sem o sentimentalismo romântico, refletindo a maturidade do poeta, que soube representar em seus versos o equilíbrio, lição básica dos mestres clássicos. Observe, no soneto a seguir, que não há a exacerbação dos românticos nem seu pessimismo, a solidão, evasão pela noite, pela busca da morte. Mas o encontro da alegria, do gosto pela vida.

Soneto IV

Como a floresta secular, sombria,
Virgem do passo humano e do machado,
Onde apenas, horrendo, ecoa o brado
Do tigre, e cuja agreste ramaria

Não atravessa nunca a luz do dia,
Assim também, da luz do amor privado,
Tinhas o coração ermo e fechado,
Como a floresta secular, sombria…

Hoje, entre os ramos, a canção sonora
Soltam festivamente os passarinhos.
Tinge o cimo das árvores a aurora…

Palpitam flores, estremecem ninhos…
E o sol do amor, que não entrava outrora,
Entra dourando a areia dos caminhos.

Olavo Bilac – Via Láctea

Em 1885, Olavo Bilac namorou a poetisa Amélia de Oliveira, irmã do amigo e poeta Alberto de Oliveira. Essa paixão inspirou boa parte dos sonetos da Via Láctea, mas, a despeito da temática amorosa, Bilac observou a contenção neoclássica ao exprimir seus sentimentos.

Soneto XXXIV

Quando adivinha que vou vê-la, e à escada
Ouve-me a voz e o meu andar conhece,
Fica pálida, assusta-se, estremece,
E não sei por que foge envergonhada.

Volta depois. À porta, alvoroçada,
Sorrindo, em fogo as faces, aparece:
E talvez entendendo a muda prece
De meus olhos, adianta-se apressada.

Corre, delira, multiplica os passos;
E o chão, sob os seus passos murmurando,
Segue-a de um hino, de um rumor de festa…

E ah! que desejo de a tomar nos braços,
O movimento rápido sustando
Das duas asas que a paixão lhe empresta.

Olavo Bilac – Via Láctea

Via Láctea apresenta maior uniformidade formal, pois os trinta e cinco poemas da obra são sonetos constituídos de versos decassílabos. De certa maneira, a preferência pela forma fixa significava uma reação aos românticos, mas a função emotiva da linguagem, retoma o discurso romântico.

Soneto XXX

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Olavo Bilac – Via Láctea

– Via Láctea – Texto analisado

Soneto XIII

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

Olavo Bilac – Via Láctea

Aspectos analisados no poema:

01-A estrutura:
A) Imitação do modelo clássico: o poema é um soneto italiano em versos decassílabos heroicos ( sexta e décima sílabas são tônicas): veja a escansão do primeiro verso:
O/ra/di/reis/ou/vir/es/ter/las/Cer/to

B) As marcas da poesia parnasiana:
Preciosismo verbal/vocábulos selecionados: pálio/cintila/tresloucado.
Hipérbato: inversão dos termos da oração: E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Cavalgamento/ enjambement: versos 01 e 02 – 03 e 04 – 10 e 11 – 13 e 14.
Rima rica: certo/desperto, estrelas/entendê-las.

02- O discurso: alheio às questões de seu tempo, como a crise que provocou a Abolição e a República, a urbanização do Rio de Janeiro, a contemplação do céu noturno. Poema tipicamente parnasiano, sem revelar conflito social, para agradar a seu público, os emergentes, ricos na forma, pobres no conteúdo.

03-Funções da linguagem: a presença do EU evidencia a função emotiva; o cuidado formal – rimas, métrica, linguagem rebuscada, hipérbato – a evidencia a função poética.

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