Mia Couto – Estórias Abensonhadas – análise

Publicado em 24 de junho de 2017 na categoria

ESTÓRIAS ABENSONHADAS – MIA COUTO

Mia Couto escreve sobre o seu país, Moçambique, mas também escreve sobre os conflitos humanos universais. As suas palavras, tão repletas de novas possibilidades, por sua capacidade de juntar sentimentos, verbos e ações como algo único, dão caráter poético ao livro Estórias Abensonhadas, apesar de tematizar a guerra, que destrói a beleza das coisas, dos lugares e das pessoas.
Abensonhadas. Sonhadas, Bem Sonhadas, Benção de Sonhos. Tanta coisa mora dentro das palavras que Mia Couto inventa. O seu faliventar já é uma característica de sua obra, assim como a crítica social atrelada à exaltação constante da cultura do seu povo e a capacidade de contar histórias universais, levando o leitor a pensar sobre a sua própria condição.
O pós-guerra é o principal tema do livro, porém, há outros temas, dentro deste único universo: amor, traição, casamento, raiva, nascimento, saudade, educação, violência. E dentro disso tudo, o estilo tão peculiar de Mia Couto, que brinca constantemente com o real e o imaginário:
Estas estórias foram escritas depois da guerra. Por incontáveis anos as armas tinham vertido luto no chão de Moçambique. Estes textos me surgiram entre as margens da mágoca e da esperança.
Mia Couto, com suas histórias reais e mágicas, mostra a crueza da guerra, os seus estragos, as suas feridas e do quanto é importante resgatar o sentido da vida cotidiana, mesmo nas situações mais atípicas, mesmo quando não há desejo e percepção sobre as próprias mudanças da alma. O autor escreve com a linguagem dos sonhos, opera a palavra como um trabalhador opera o seu melhor instrumento. E vai além, recria seu uso e funções provando que a Língua Portuguesa se transmuta conforme a sua geografia, é viva. E em Estórias Abensonhadas essa língua ganha ares de esperança num terreno onde tudo precisa de reconstrução e mesmo que a morte esteja presente em boa parte dos contos, não há como esconder a esperança de ir adiante.
Os contos de Estórias Abensonhadas ultrapassam qualquer relação simplista de leitor e obra, é como se o leitor olhasse através de uma janela e conhecesse esses personagens como seus vizinhos, amigos e parentes. São histórias fantásticas escritas com a liberdade de um contador de histórias, pois além de o autor não se prender à convenções linguísticas, ele dialoga de muito perto com as nossas próprias raízes, é a linguagem universal dos sonhos.

– CONTOS:
01- Nas Águas do Tempo: narrado em primeira pessoa, apresenta o narrador protagonista e seu avô, em constantes incursões ao pequeno rio que levava ao lago. Chegando lá, o velho presenciava na outra margem o que apenas os olhos que veem para dentro podem perceber. O neto só percebe no final, quando o avô morre e se integra à magia da natureza, deixando ao neto seu legado. O conto Nas águas do tempo é sobre esperança expressa na bela entre avô e neto, enfatizando a importância de ouvir, respeitar e acreditar nas pessoas mais experientes.
02- As flores de novidade: o narrador observador apresenta a trajetória de Novidade Castigo:
Iniciemos pela moça: era espantadamente bela, com face de espantar aos anjos. Nem água fosse mais cristalinda. O porém dela, contudo, era vagarosa de mente, o pensamento parecia nela não pernoitar.
Filha de Jonasse Nhamitando e Verônica Manga, a moça cresceu alheia às coisas práticas da vida, não era filha única, era filha nenhuma. Ligada ao pai, só comia, bebia e dormia, quando ele voltava da mina em que trabalhava. A filha sempre tinha para ele flores azuis como seus olhos e que ninguém sabia onde ela encontrava. Um dia, sofreu convulsões no exato momento em que seu pai desaparecia na mina por causa de uma explosão. Soldados do governo retiraram todos os moradores da pequena cidade. Ao passarem pela mina, Novidade desceu do camião e desapareceu nos escombros em que seu pai também sumira. No local nasceram flores de um azul desconhecido de todos.
03- O Cego Estrelinho: narrado em terceira pessoa, trabalha a função poética da linguagem, a força da palavra, recriando imagens nunca vistas. Exemplo disso, são os personagens com nomes muito sugestivos, como é o caso de Estrelinho, o cego. Este, orientado pelas mãos de Gigito, é apresentado a um mundo fantástico e pulsante. Quando Gigito é mandado à guerra – matadora de esperanças e cores – o cego passa a ser orientado pela irmã, a Infelizmina que não vê nada demais no mundo ali fora. Ao chegar a notícia da morte de Gigito, porém a situação se transforma. A irmã definhava, e o cego se apropria da circunstância: convence a moça a viajar com ele pelo mundo mágico que ele viu antes com Gigito e ao qual agora ele transporta Infelizmina.
04- Na Esteira do Parto: em terceira pessoa, o leitor conhece, a partir de um fato prosaico, o parto, o drama dos casais Diamantino e Tudinha Rosa, que sente as dores do parto, e Ananias e Maria Cascatinha, a parteira, dona da esteira. Enquanto Tudinha vive as dores do parto, Diamantino abusa despreocupado da hospitalidade de Ananias, consumindo sua cachaça, como se nada tivesse com o parto. O parto se prolonga e, segundo a sabedoria popular, parto prolongado é sinal de que o filho é de outro que não o pai, e a mãe tem de revelar a verdade. Em meio a gritos de dor, Tudinha revela que o vizinho Ananias é o pai verdadeiro do filho que dará à luz. O marido, Diamantino deu uma surra em Ananias e foi para casa. Sua mulher não voltou, ficou com o vizinho, cuja esposa, Maria Tudinha foi acompanhar a desgraça de Diamantino.
05- O Perfume: em terceira pessoa, apresenta o desfecho da relação de Glória e Justino. Casados, ele a condenou à vida em casa devido ao ciúme intenso. Um dia, porém, ele traz para ela um vestido novo muito bonito, diz que os filhos ficarão com os vizinhos, porque eles irão a um baile. Surpresa, ela se arruma. Veste o vestido e se perfume com a fragrância que sobrou de um perfume que ganhou do marido há tempos. No baile, Justino não dança, e Glória começa a dançar com outro, consentido pelo marido. Ele vai para a mesa, mas sai e vai embora. Glória o procura, mas Justino deu a ela a liberdade. Ao voltar para casa, corta os pés nos cacos do vidro de perfume. Estreou o sangue de sua felicidade.
07- Chuva: a Abensonhada: narrado em primeira pessoa, inicia-se o conto com uma intensa chuva que anuncia o fim da guerra em Moçambique e a promessa de uma nova vida:
Estou sentado junto da janela olhando a chuva que cai há três dias. Que saudade me fazia o molhado tintintinar do chuvisco. A terra perfumegante semelha a mulher em véspera de carícia. Há quantos anos não chovia assim? De tanto durar, a seca foi emudecendo a nossa miséria. O céu olhava o sucessivo falecimento da terra, e em espelho, se via morrer. A gente se indaguava: será que ainda podemos recomeçar, será que a alegria ainda tem cabimento? Agora, a chuva cai, cantarosa, abençoada. O chão, esse indigente indígena, vai ganhando variedades de belezas. Estou espreitando a rua como se estivesse à janela do meu inteiro país. Enquanto, lá fora, se repletam os charcos a velha Tristereza vai arrumando o quarto.
Para Tia Tristereza a chuva não é assunto de clima mas recado dos espíritos. E a velha se atribuí amplos sorrisos: desta vez c que eu envergarei o falo que ela tanto me insiste. Indumentária tão exibível e eu envergando mangas e gangas. Tristereza sacode em sua cabeça a minha teimosia: haverá razoável argumento para eu me…

A velha Tia Tristereza conta ao sobrinho sua fantástica história: a chuva lava o sangue da guerra, molha a areia, e as nuvens carregam peixes e caranguejos. Os dois saem para a rua, felizes como crianças, a celebrar a renovação da vida.
11- Jorojão Vai Embalando Lembranças: narrador observador, traz ao leitor seu amigo Jorge Pontivírgula e seus mal-desentendidos com a vida. Sempre evitando confusão, o que era quase impossível, por ele ser de uma altura desproporcional, Jorojão se tornou guia de safáris. Em uma caçada com elementos da repressão, mata acidentalmente um deles e vai preso acusado de terrorismo. A revolução de 1974 o libertou como herói do povo e o nomeou diretor de uma empresa nacionalizada. Para surpresa, a empresa que dirigia era a única organizada e lucrativa, por isso foi considerado traidor e preso novamente. Solto depois de um protesto de seus comandados, comprovada sua inocência, leva seus dias na cadeira de balanço, contando histórias, no vaivém do tempo e do balanço.
16- Os Infelizes Cálculos da Felicidade: narra o conflito vivido por Júlio Novesfora, o mestre Novesfora, homem extremamente matemático, pragmático, que vivia suas relações todas baseadas na lógica das equações, até o dia em que se apaixonou perdidamente por uma aluna. Todo mundo advertiu, dizendo que era só ele fazer as contas que perceberia o absurdo de sua paixão. O mestre, porém, se levou pelo sentimento pela primeira vez, para o assombro de todos, vivendo intensa relação com a menina. Sexagenário ou sexogenário? Ironizavam. A menina gostava do calor do verão, o inverno a fazia chorar. O inevitável acontece, a relação dos dois se esgotou. Surpreendentemente da parte dele, que a deixa chorando no inverno, para viver outra tão intensa paixão com outra, jovem.
17- Joãotónio, no enquanto: em primeira pessoa, o narrador protagonista, Joãotónio, dá voz à consciência masculina, revelando o temor em relação às mulheres. Em tom humorístico, retrata seu relacionamento com a bela e fria Maria Zeitona, sua esposa. Após tentar de todas as formas, acender o fogo da jovem esposa e não conseguir ele a leva à bacanaleira Maria Mercante, no bordel, para que esta ensinasse a Maria Zeitona a arte do amor. Depois de algum tempo, a esposa retorna, dominando todos os segredos do sexo, porém dominadora, submetendo o marido, revertendo a situação. No desfecho do conto, ele já é quase Joanantónia, nos braços viris da esposa.
19- A Guerra dos Palhaços: narrado em terceira pessoa, relata a situação absurda: dois palhaços brincantes iniciam uma acalorada discussão, esta envolve pouco a pouco os moradores da pequena cidade até começar uma guerra entre os espectadores que tentam interpretar a performance dos palhaços. Um texto curto, mas imenso de alegorias sobre a estupidez de um conflito. Após os moradores se matarem, os dois palhaços se abraçam, rindo, e vão para outra localidade reiniciar a brincadeira.
20- A Lenda de Namarói: o contato do leitor com a lenda aponta para o aspecto de tratar-se de uma estória contada por alguém que repassa um conhecimento coletivo:

(inspirado no relato da mulher
do régulo de Namarói, Zambézia,
recolhido pelo Padre Elias Ciscato.)

o conto reproduz uma versão da origem da vida humana, na perspectiva das mulheres. Primeiro havia apenas o sexo feminino, e mulheres reproduziam sem a necessidade de homens. Quando um grupo de mulheres engravidou e não conseguiu parir, esse grupo foi engolido por outras mulheres, que a seguir as desengoliu, mas elas vieram homens. Estranharam-se, e os homens foram para a outra margem do fio de água que corria ali. Este fio de água se tornou um córrego que se tornou um rio, separando os homens das mulheres. Estas dominavam o fogo, enquanto os homens se serviam de alimentos crus. Decidiram buscar o fogo, mas nunca chegavam com ele do seu lado, até que um encontrou o caminho. Deitou-se com uma das mulheres e sentiu seu fogo interno, levando depois a chama para seus companheiros. A partir desse fato, a história se tornou outra: homens e mulheres dividiam o fogo e juntos reproduziam a vida. E o rio voltou a ser um fio de água, já que agora eram uma só humanidade.
26- A Praça dos Deuses: narrado em terceira pessoa, retrata a festa promovida por Mohamed Pangi Patel, para celebrar o casamento do filho. Esse conto representa bem a influência na obra de Mia Couto do colombiano Gabriel García Márquez, o Realismo-Mágico, e do brasileiro João Guimarães Rosa, a criação da Linguagem.
1926: foi o ano da data. Aconteceu pessoalmente a estória do comerciante Mohamed Pangi Patel, homem poderoso que despendeu vida e riqueza na Ilha de Moçambique. Comportadamente decorriam os tempos e Mohamed Pangi dava graças a Deus pela amabilidade do mundo e das suas belezas. O ismaelita vivia engordado de seu próprio nome, cheio de disposição. Mais satisfeito ele ainda se instaurou quando seu filho único lhe veio anunciar a decisão do casamento.
— Sabe, filho! A vida é um perfume!
E iniciaram os imediatos preparativos do matrimónio. Festa igual nunca mais se iria ver naquelas paragens, Vieram músicos de Zanzibar, convidados de Mombaça, gentes do Ibo e Angoche. A festa demorou trinta dias de tempo. Em cada um desses dias, a praça se cobriu de mesas, recheadas de refeições. De manhã à noite, se exibiam comidas, de todas as espécies e quantidades. A ilha inteira vinha e se servia, às arrotadas abundâncias. Nenhum pobre sentiu, nesses dias. o beliscão do estômago.

Durante dias, Pangi esgotou todas as suas economias na festa, para desespero de seu filho. Ao final, revela à nora que a festa não era para celebrar o casamento, mas uma oferta aos deuses. Naqueles dias toda a ilha foi feliz. E ele morria com a certeza de que tornara a praça por um tempo em um local dos deuses.

Sinval Santana, 23 horas e 41 minutos, 20/06/2014.

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