DESTINO: POESIA
– PROFESSOR SINVAL SANTANA
Antologia que reúne os cinco maiores nomes da poesia marginal, escrita nos anos 1970, no Brasil. Italo Moriconi escolheu textos representativos da obra de cada um dos poetas para compor essa edição, dando a dimensão criativa e estética de uma época única e original em nossa literatura. Uma coletânea de poemas irreverentes, melódicos e contestadores, que já entraram para a história da poesia brasileira.
Anos 1970: a Poesia Marginal
Ficou conhecida como Poesia Marginal a produzida no começo dos anos 1970, durante a ditadura militar brasileira. O nome que define esta geração de poetas se aplica a autores que se colocavam à margem do sistema editorial ou tinham dificuldade para publicar suas obras em editoras de grande porte. Por esse mesmo motivo, também ficaram conhecidos pela expressão geração do mimeógrafo, uma vez que se valiam de tal máquina para levar ao público consumidor, de forma ágil e barata, livros de pequena tiragem, financiados e distribuídos por conta própria.
Influências:
– Primeira Fase Modernista – Oswald de Andrade
Do Modernismo vanguardista de 1922, a Poesia Marginal herda o gosto pelo prosaico, o caráter anti-intelectual, a paródia, o humor, a irreverência/Poema Piada, a oralidade da linguagem, a concisão/Poema pílula. Como a Poesia Marginal se desenvolveu nos anos de chumbo, rir foi a saída para contestar o regime de opressão.
– Geração Beat norte-americana – Allan Ginsberg, William S. Burroughs, Jack Kerouac
A Beat Generation foi um movimento literário originado em meados dos anos 1950 por um grupo de jovens intelectuais cansado do modelo quadradinho de ordem estabelecido nos EUA após a Segunda Guerra Mundial. Com o objetivo de se expressarem livremente e contarem sua visão do mundo e suas histórias, esses escritores começaram a produzir desenfreadamente, muitas vezes movidos a drogas, álcool, sexo livre e jazz – o gênero musical que mais inspirou os beats. As principais características do movimento são: intensidade em tudo, escrita compulsiva, fluxo de pensamento desordenado, por vezes caótico, linguagem informal, cheia de gírias e palavrões, apoio à igualdade étnica, ao multiculturalismo.
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– DESTINO: POESIA – Autores:
Ana Cristina Cesar: ou Ana C., como era conhecida, nasceu em 1952 no Rio de Janeiro. Após 1968, passou um ano em Londres, fez algumas viagens pelos arredores e, na volta ao Brasil, com livros de Emily Dickinson e Katherine Mansfield nas malas, dedicou-se a escrever e a traduzir, entrando para a Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), aos dezenove anos. Deu aulas, traduziu, fez letras, escreveu para revistas e jornais alternativos, fez mestrado em comunicação, lançou seus primeiros livros em edições independentes. Depois voltou à Inglaterra, graduou-se em tradução literária, escreveu muitas cartas. Trabalhou em jornalismo, televisão. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983.
trilha sonora ao fundo: piano no bordel, vozes barganhando
Trilha sonora ao fundo: piano no bordel, vozes barganhando
uma informação difícil. agora silêncio; silêncio eletrônico,
produzido no sintetizador que antes construiu a ameaça das
asas batendo freneticamente.
Apuro técnico.
Os canais que só existem no mapa.
O aspecto moral da experiência.
Primeiro ato da imaginação.
Suborno no bordel.
Eu tenho uma ideia.
Eu não tenho a menor ideia.
Uma frase em cada linha. Um golpe de exercício.
Memórias de Copacabana. Santa Clara às 3 da tarde.
Autobiografia. Não, biografia.
Mulher.
Papai Noel e os marcianos.
Billy the Kid versus Drácula.
Drácula versus Billy the Kid.
Muito sentimental.
Agora pouco sentimental.
Pensa no seu amor de hoje que sempre dura menos que o seu
amor de ontem.
Gertrude: estas são ideias bem comuns.
Apresenta a jazz-band.
Não, toca blues com ela.
Esta é a minha vida.
Atravessa a ponte.
É sempre um pouco tarde.
Não presta atenção em mim.
Olha aqueles três barcos colados imóveis no meio do grande rio.
Estamos em cima da hora.
Daydream.
Quem caça mais o olho um do outro?
Sou eu que admito vitória.
Ela que mora conosco então nem se fala.
Caça, caça.
E faz passos pesados subindo a escada correndo.
Outra cena da minha vida.
Um amigo velho vive em táxis.
Dentro de um táxi é que ele me diz que quer chorar mas não chora.
Não esqueço mais.
E a última, eu já te contei?
É assim.
Estamos parados.
Você lê sem parar, eu ouço uma canção.
Agora estamos em movimento.
Atravessando a grande ponte olhando o grande rio e os três
barcos colados imóveis no meio.
Você anda um pouco na frente.
Penso que sou mais nova do que sou.
Bem nova.
Estamos deitados.
Você acorda correndo.
Sonhei outra vez com a mesma coisa.
Estamos pensando.
Na mesma ordem de coisas.
Não, não na mesma ordem de coisas.
É domingo de manhã (não é dia útil às três da tarde).
Quando a memória está útil.
Usa.
Agora é a sua vez.
Do you believe in love…?
Então está.
Não insisto mais.
inverno europeu
Daqui é mais difícil: país estrangeiro, onde o creme de lei-
te é desconjunturado e a subjetividade se parece com um
roubo inicial. Recomendo cautela. Não sou personagem do
seu livro e nem que você queira não me recorta no hori-
zonte teórico da década passada. Os militantes sensuais
passam a bola: depressão legítima ou charme diante das
mulheres inquietas que só elas? Manifesto: segura a bola;
eu de conviva não digo nada e indiscretíssima descalço as
luvas (no máximo), à direita de quem entra.
noite carioca
Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na contra-
mão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher mais
discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.
conversa de senhoras
Não preciso nem casar
Tiro dele tudo que preciso
Não saio mais daqui
Duvido muito
Esse assunto de mulher já terminou
O gato comeu e regalou-se
Ele dança que nem um realejo
Escritor não existe mais
Mas também não precisa virar deus
Tem alguém na casa
Você acha que ele aguenta?
Sr. ternura está batendo
Eu não estava nem aí
Conchavando: eu faço a tréplica
Armadilha: louca pra saber
Ela é esquisita
Também você mente demais
Ele está me patrulhando
Para quem você vendeu seu tempo?
Não sei dizer: fiquei com o gauche
Não tem a menor lógica
Mas e o trampo?
Ele está bonzinho
Acho que é mentira
Não começa
olho muito tempo o corpo de um poema
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
jornal íntimo
à Clara
30 de junho
Acho uma citação que me preocupa: “Não basta produzir contradições,
é preciso explicá-las”. De leve recito o poema até sabê-lo de cor.
Célia aparece e me encara com um muxoxo inexplicável.
29 de junho
Voltei a fazer anos. Leio para os convidados trechos do antigo
diário. Trocam olhares. Que bela alegriazinha adolescente, exclama
o diplomata. Me deitei no chão sem calças. Ouvi a palavra
dissipação nos gordos dentes de Célia.
27 de junho
Célia sonhou que eu a espancava até quebrar seus dentes. Passei
a tarde toda obnublada. Datilografei até sentir câimbras. Seriam
culpas suaves. Binder diz que o diário é um artifício, que não sou
sincera porque desejo secretamente que o leiam. Tomo banho
de lua.
27 de junho
Nossa primeira relação sexual. Estávamos sóbrios. O obscurecimento
me perseguiu outra vez. Não consegui fazer as reclamações
devidas. Me sinto em Marienbad junto dele. Perdi meu
pente. Recitei a propósito fantasias capilares, descabelos, pelos
subindo pelo pescoço. Quando Binder perguntou do banheiro
o que eu dizia respondi “Nada” funebremente.
26 de junho
Célia também deu de criticar meu estilo nas reuniões. Ambíguo
e sobrecarregado. Os excessos seriam gratuitos. Binder prefere a
hipótese da sedução. Os dois discutem como gatos enquanto
rumbas me sacolejam.
25 de junho
Quando acabei O jardim de caminhos que se bifurcam uma urticária
me atacou o corpo. Comemos pato no almoço. Binder me
afaga sempre no lugar errado.
27 de junho
O prurido só passou com a datilografia. Copiei trinta páginas de
Escola de mulheres no original sem errar. Célia irrompeu pela
sala batendo com a língua nos dentes. Célia é uma obsessiva.
28 de junho
Cantei e dancei na chuva. Tivemos uma briga. Binder se recusava
a alimentar os corvos. Voltou a mexericar o diário. Escreveu
algumas palavras. Recurso mofado e bolorento! Me chama de
vadia para baixo. Me levanto com dignidade, subo na pia, faço
um escândalo, entupo o ralo com fatias de goiabada.
30 de junho
Célia desceu as escadas de quatro. Insisti no despropósito do
ato. Comemos outra vez aquela ave no almoço. Fungo e suspiro
antes de deitar. Voltei ao
houve um poema
que guiava a própria ambulância
e dizia: não lembro
de nenhum céu que me console,
nenhum,
e saía,
sirenes baixas,
recolhendo os restos das conversas,
das senhoras,
“para que nada se perca
ou se esqueça”,
proverbial,
mesmo se ferido,
houve um poema
ambulante,
cruz vermelha
sonâmbula
que escapou-se
e foi-se
inesquecível,
irremediável,
ralo abaixo.
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Cacaso: Poesia rápida como a vida. Antônio Carlos Ferreira de Brito, o Cacaso, nasceu em Uberaba – MG, no dia 13 de março de 1944, e faleceu em 1987, no dia 27 de dezembro, no Rio de Janeiro. Antes dos 20 anos veio a poesia, através de letras de sambas que colocava em músicas de amigos como Elton Medeiros e Maurício Tapajós. Sua obra não só revelou uma das mais combativas e criativas vozes dos anos de chumbo, como deu visibilidade e respeitabilidade ao fenômeno da Poesia Marginal, em que militavam, direta ou indiretamente, amigos como Francisco Alvim, Torquato Neto, Wally Salomão, Ana Cristina Cezar, Charles, Chacal.
Postal
Há uma gota de sangue no cartão postal
eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando
[na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
(Antonio Carlos de Brito (CACASO), “Beijo na boca”. Rio de Janeiro, 7 Letras, 2000. p. 12.)
a) Este poema de Cacaso (1944-1987) dialoga com várias vozes que falaram sobre a paisagem e o homem brasileiros. Justifique a referência ao “cartão postal” do título, através de expressões usadas na primeira estrofe.
b) O poema se constrói sobre uma imagem suposta de brasileiro. Qual é essa imagem?
c) Quais as expressões poéticas que desmentem a felicidade obrigatória do eu do poema?
O Fazendeiro do Mar
Mar de mineiro é garoa
Mar de mineiro é baião
Mar de mineiro é lagoa
Mar de mineiro é balão
Mar de mineiro é não
Mar de mineiro é viagem
Mar de mineiro é arte
Mar de mineiro é margem
Mar de mineiro é parte
Mar de mineiro é Marte
Mineiro tem mar de menos
Mineiro tem mar demais
Mineiro tem mar de Vénus
Mineiro tem cais
Mineiro tem mar de paz
Mar de mineiro é tudo
Mar de mineiro é fase
Mar de mineiro é mudo
Mar de mineiro é quase
Mar de mineiro é frase
Mineiro tem mar de cio
Mineiro tem mar de fonte
Mineiro tem mar de rio
Mineiro tem mar de monte
Mar de mineiro é horizonte
Mar de mineiro é Gerais
Mar de mineiro é Campinas
Mar de mineiro é Goiás
Mar de mineiro é Colinas
Mar de mineiro é Minas
Lar doce lar
p/ Maurício Maestro
Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio.
Cinema mudo
Neste retrato de noivado divulgamos
os nossos corpos solteiros.
Na hierarquia dos sexos, transparente,
escorrego
para o passado.
Na falta de quem nos olhe
vamos ficando perfeitos e belos
tão belos e tão perfeitos
como a tarde quando pressente
as glândulas aéreas da noite.
Logias e analogias
No Brasil a medicina vai bem
mas o doente ainda vai mal.
Qual o segredo profundo
desta ciência original?
É banal: certamente
não é o paciente
que acumula capital.
As aparências revelam 69
Reflexo condicionado 70
Jogos florais I
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.
Jogos florais II
Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.
(será mesmo com 2 esses
que se escreve paçarinho?)
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Paulo Leminski: nasceu em Curitiba, Paraná, no dia 24 de agosto de 1944 e tornou-se conhecido por ter inventado seu próprio jeito para escrever poesias, fazendo trocadilhos ou brincando com ditados populares. Paulo Leminski foi também professor de História e de Redação em cursos pré-vestibulares. Foi diretor de criação e redator de publicidade. Faleceu precocemente no dia 7 de junho de 1989.
das coisas
das coisas
que eu fiz a metro
todos saberão
quantos quilômetros
são
aquelas
em centímetros
sentimentos mínimos
ímpetos infinitos
não?
o inseto no papel
de som a som
de som a som
ensino o silêncio
a ser sibilino
de sino a sino
o silêncio ao som
ensino
Aviso aos náufragos
Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?
A lua no cinema
A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!
Marginal é quem escreve à margem
Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.
Marginal, escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha.
Sintonia para pressa e presságio
Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.
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Torquato Neto: nasceu em Teresina, 9 de novembro de 1944, e faleceu no Rio de Janeiro, em 10 de novembro de 1972. Foi poeta, jornalista, letrista de música popular, experimentador ligado à contracultura. Mudou-se para Salvador aos 16 anos para os estudos secundários, onde foi contemporâneo de Gilberto Gil no Colégio Marista e trabalhou como assistente no filme Barravento, de Glauber Rocha. Torquato envolveu-se ativamente na cena de Salvador. Onde conheceu, além de Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia. Em 1962, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar jornalismo, mas nunca chegou a se formar. Trabalhou para diversos veículos da imprensa carioca, com colunas sobre cultura no Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora. No Rio destacou-se como agente cultural e polemista defensor de manifestações artísticas de vanguarda, como a Tropicália, o cinema marginal e a poesia concreta, circulando no meio cultural efervescente da época, ao lado de amigos como os poetas Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, o cineasta Ivan Cardoso e o artista plástico Hélio Oiticica.
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos segredos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim..
Go back
Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou, passou
Daqui pra melhor, foi
Só quero saber do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder
Geleia geral
Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia
Resplandente, cadente, fagueira num calor girassol com alegria
Na geleia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi
A alegria é a prova dos nove e a tristeza é teu porto seguro
Minha terra é onde o sol é mais limpo e Mangueira é onde o samba é mais puro
Tumbadora na selva-selvagem, Pindorama, país do futuro
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi
É a mesma dança na sala, no Canecão, na TV
E quem não dança não fala, assiste a tudo e se cala
Não vê no meio da sala as relíquias do Brasil:
Doce mulata malvada, um LP de Sinatra, maracujá, mês de abril
Santo barroco baiano, superpoder de paisano, formiplac e céu de anil
Três destaques da Portela, carne-seca na janela, alguém que chora por mim
Um carnaval de verdade, hospitaleira amizade, brutalidade jardim
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi
Plurialva, contente e brejeira miss linda Brasil diz “bom dia”
E outra moça também, Carolina, da janela examina a folia
Salve o lindo pendão dos seus olhos e a saúde que o olhar irradia
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi
Um poeta desfolha a bandeira e eu me sinto melhor colorido
Pego um jato, viajo, arrebento com o roteiro do sexto sentido
Voz do morro, pilão de concreto tropicália, bananas ao vento
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi
Let’s play that
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let’s play that
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Waly Salomão: 1944-2003 – baiano de Jequié, Wally esteve ligado aos Tropicalistas Caetano Velloso, Torquato Neto, Gilberto Gil, Gal Costa mas não se considerava do grupo. Além de poeta, Waly Salomão também era letrista e produtor cultural. Como letrista, colaborou com muitos artistas, como Caetano Veloso – Talismã, Lulu Santos – Assaltaram a Gramática, sucesso com os Paralamas do Sucesso.
Olho de lince
quem fala que sou esquisito hermético
é porque não dou sopa estou sempre elétrico
nada que se aproxima nada me é estranho
fulano sicrano beltrano
seja pedra seja planta seja bicho seja humano
quando quero saber o que ocorre à minha volta
ligo a tomada abro a janela escancaro a porta
experimento invento tudo nunca jamais me iludo
quero crer no que vem por aí beco escuro
me iludo passado presente futuro
urro arre i urro
viro balanço reviro na palma da mão o dado
futuro presente passado
tudo sentir total é chave de ouro do meu jogo
é fósforo que acende o fogo de minha mais alta razão
e na sequência de diferentes naipes
quem fala de mim tem paixão
Ars poética / operação limpeza
Assi me tem repartido extremos, que não entendo…
(Sá de Miranda)
I-
SAUDADE é uma palavra
Da língua portuguesa
A cujo enxurro
Sou sempre avesso
SAUDADE é uma palavra
A ser banida
Do uso corrente
Da expressão coloquial
Da assembleia constituinte
Do dicionário
Da onomástica
Do epistolário
Da inscrição tumular
Da carta geográfica
Da canção popular
Da fantasmática do corpo
Do mapa da afeição
Da praia do poema
Pra não depositar
Aluvião
Aqui nesta ribeira.
II-
Súbito
Sub-reptícia sucurijuba
A reprimida resplandece
Se meta-formoseia
Se mata
O q parecia pau de braúna
Quiçá pedra de breu
Quiçá pedra de breu
CINTILA
Re-nova cobra rompe o ovo
Da casca velha
SIBILA
III-
SAUDADE é uma palavra
O sol da idade e o sal das lágrima
Orapronobis
[Tira-teima da cidadezinha de Tiradentes]
Café coado.
Cafungo minha dose diária de Murilo e Drummond.
Lápis de ponta fina.
Lá detrás daquela serra
Estamparam um desenho de Tarsila na paisagem.
Menino que pega ovo no ninho de seriema.
Pessoas sentadas nos bancos de calcário
Dão a vida por um dedo de prosa.
Cada vereador deposita na mesa da câmara
A grosa de pássaros pretos que conseguiu matar
Árdua labuta pra hoje em dia
Pois quase já não há
Pássaros pretos no lugar.
De tarde gritaria das maritacas
Encobre o piano arpejando o “Noturno” de Chopin.
Bêbado escornado no banco da praça.
Orlando Curió cisma um rabo de sereia do mar debuxado no lombo do
seu cavalo.
A meia lua
E a estrela preta
De oito pontas
Do teto da igreja
Do Rosário dos Pretos.
Que luz desponta
Da meia lua
E que centelha
Da estrela preta de oito pontas
Do teto
Da igreja do Rosário dos Pretos?
Pra quem aponta
A luz da meia lua
E pra quem cintila
Preta de oito pontas
A estrela desenhada no teto
Da igreja do Rosário dos Pretos?
Amante da algazarra
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela!!
Todo mundo sabe, sou um lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.
Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro.
Vixe!!
Enquanto caminha a pé, pedestre – peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.
Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.
Saques
Ainda há focos de incêndio no pavilhão
E a laje ameaça desabar.
Um cruzado mané-ninguém surta em majestade
Rompe o encouraçado cordão de isolamento
Escala a pilha de escombros
Alça os braços aos sete céus e clama:
—Assim me falou o Rei Invisível:
“Sois a alma do universo”.
Convoca falanges, coortes de legionários desembestados,
Uma gentinha que aplica lances e golpes e vive de expedientes,
Famílias famélicas
E sua prole prolífica
Gatinham no garimpo do galpão em chamas.
O homem do riquixá garante seu espólio:
Comidas, freezers, aparelhos de ar condicionado,
Blusões e ténis enfarruscados.
Dois homens colocam outro freezer numa carroça
E saem em disparada no foco da fotografia.
Três mulheres de Tatuapé carregam sabonetes sem marcas,
Mesas e cadeiras de ferro.
Um Raimundo empurra um carrinho de pedreiro lotado de britas,
Pedaços de concreto, sacos de arroz, de feijão
“Nunca comi esse tal de atum, agora vou experimentar”—
Testemunha a desempregada de nascença Josete Joselice, 56,
Mostrando para a câmara da TV uma latinha chamuscada.
Lá nas alturas do monte,
Uma moça banguela ergue no pódio seu troféu de pacotes de
mozarelas.
Como os valentes, finca teu estandarte
No meio do deserto.
Grumari
Entra mar adentro
Deixa o marulho das ondas lhe envolver
Até apagar o blá-blá-blá humano.
Maré que puxa com força, hoje.
É a lua cheia, talvez…
As retinas correm a cadeia de montanhas que circunda a praia.
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