Barroco Poesia – Gregório de Matos

Publicado em 15 de agosto de 2014 na categoria

GUIA DE LINGUAGENS – LITERATURA BRASILEIRA

 

– POESIA BARROCA

pintura barroca

Cristo Crucificado – Velasquez– Barroco: Contexto Histórico

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Velásquez, Cristo crucificado – 1631, disponível em: http://www.xpresion.es/2010/10/21/velazquez-cristo-crucificado-1631-madrid/ acessado em 09/01/2014

 

Buscando a Cristo

 

A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa cruz sacrossanta descobertos,

Que, para receber-me, estais abertos,

E, por não castigar-me, estais cravados.

 

A vós, divinos olhos, eclipsados

De tanto sangue e lágrimas abertos,

Pois, para perdoar-me, estais despertos,

E, por não condenar-me, estais fechados.

 

A vós, pregados pés, por não deixar-me,

A vós, sangue vertido, para ungir-me,

A vós, cabeça baixa p ‘ra chamar-me.

 

A vós, lado patente, quero unir-me,

A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme.

 

Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br

 

Durante o século XVII, a Igreja, tanto a católica como a protestante, reagiu contra o apelo material, racional, desenvolvido no período anterior, o Renascimento. As Navegações, o Mercantilismo, o Renascimento das cidades resgataram a supremacia do indivíduo, da razão, superaram o medo do desconhecido e instauraram o desejo de viver o presente, a vida terrena, o Carpe diem.

Era preciso restaurar a ideologia religiosa, reconduzir o indivíduo ao caminho da fé. Foi a Igreja Católica que se mobilizou e criou o movimento ideológico cujo discurso propunha a retomada do apelo espiritual. A Contrarreforma na Espanha, criada com a finalidade inicial de combater os protestantes, estendeu seu campo de ação às Artes e incentivou a criação do movimento de oposição ao Renascimento, o Barroco. Nascido em meio a disputas culturais e políticas, o Barroco é por princípio a Arte do conflito.

Cuidado com a visão simplista que reduz o Barroco ao conflito dos católicos com os protestantes, da Reforma e Contrarreforma. O movimento é bem mais amplo, tanto que foi intenso na Espanha, na França, na Itália, na Inglaterra e na Alemanha, reflexo da tentativa religiosa de resgatar os fiéis para o caminho de Deus.

 

– Barroco: dimensao trágica da existência

pintura barroca

Imaculada – Peter Paul rubens

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

pintura barroca

Peregrinos de Emaús – Rembrandt

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rubens – A Sagrada Família e Santa Elizabeth, disponível https://www.google.com.br/search?q=PETER+PAUL+RUBENS, e Rembrandt – Os peregrinos de Emaús, disponível em http://diversidadecatolica.blogspot.com.br/2011/06/rembrandt-e-os-peregrinos-de-emaus.html, acessados em 07/01/2014

O movimento Barroco designa o pensamento e a produção artística predominante no século XVII – na arquitetura, na música, na pintura, no Teatro, na Arquitetura e na Literatura. O termo barroco significava originalmente pedra/pérola irregular e era usado, de forma pejorativa, para referir-se a texto empolado, complicado, difícil e só perdeu o sentido depreciativo a partir do século XIX, quando foi estudado devidamente.

A estética barroca deu à Arte uma dimensão trágica, intensificando as cores e os tons, devido à tensão da época, ao conflito vivido especificamente pela Nobreza, dividida ente a opulência da vida material e a preocupação de ordem espiritual. O artista barroco vive o dilema matéria/espírito, seus sentimentos são intensos, tanto a alegria como a tristeza. É a Arte do conflito.

– Barroco: tentativa de conciliar os opostos – o espiritual e o material

 

pintura barroca

Enterro do Conde de Orgaz – El Greco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

pintura barroca

Jovem com cesta de frutas – Caravaggio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

El Greco – O enterro do conde de Orgaz, disponível em http://sumateologica.wordpress.com/tag/el-greco/, Caravaggio, Jovem com uma cesta de frutas, disponível em http://www.democraticunderground.com/103619157, acessados em 07/01/2014

 

Um dos movimentos artísticos mais importantes do Ocidente e um dos berços de nossa cultura, o Barroco reflete em suas manifestações variadas um ponto fundamental, o Fusionismo. Trata-se de uma de suas principais marcas e consiste na tentativa de conciliar os opostos, fundindo elementos pagãos a elementos religiosos em busca de saídas para os dilemas existenciais do período.  O artista barroco pretendia usufruir dos prazeres da vida terrena e ao mesmo tempo obter a compreensão divina e alcançar a salvação. São polos opostos, que o indivíduo tenta desesperadamente conciliar.

O Fusionismo, na poesia, consiste no uso do soneto clássico, pagão, para abordar temas religiosos; na presença das antíteses da poesia religiosa/o eu que peca x Deus que perdoa; dos paradoxos da poesia amorosa/o caráter angelical e ao mesmo tempo sensual da imagem feminina, da poesia filosófica/o eterno e o efêmero. Na música, a maior contribuição do Barroco para o desenvolvimento das Artes, consiste na técnica do Contraponto, da Polifonia. Na pintura, no jogo do claro e escuro, intensificando a dor e a alegria, no uso dos estudos de anatomia, condenados pela Igreja, em quadros de temática religiosa.

 

– Poesia barroca – texto analisado

Ao mesmo assunto e na Mesma Ocasião

 

Pequei Senhor: mas não porque hei pecado,

Da vossa Alta Piedade me despido:

Antes, quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

 

Se basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido:

Que a mesma culpa, que vos há ofendido,

Vos tem para o perdão lisonjeado.

 

Se uma ovelha perdida, já cobrada,

Glória tal, e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na Sacra História,

 

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;

Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.

 

Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br


01- Aspectos estruturais da poesia barroca:

– O poema segue o modelo clássico do soneto decassílabo.

– O rebuscamento marca a linguagem do poema, justificado pelo vocabulário não usual (sobeja, sacra), pelo hipérbato/ordem inversa da oração (Se basta a vos irar tanto pecado/se tanto pecado basta a irar-vos).

A figuração intensa, destacando-se as figuras de linguagem típicas da poesia barroca, como o hipérbato, a antítese (pequei/mas não pequei, delinquido/perdoar, vos irar/abrandar-vos, ofendido/lisonjeado, culpa/perdão, ofendido/lisonjeado, perdida/cobrada, ovelha desgarrada/Pastor Divino), metáfora (Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada), hipérbole (A abrandar-vos sobeja um só gemido), a sinestesia não é marca deste soneto, mas é do Barroco, como se observará em outros poemas, em que o apelo sensorial justifica a atração pelo mundo físico.

Cultismo: jogo de palavras, uma das linhas da poesia barroca, também conhecida como Gongorismo, derivado de Luís de Gôngora, poeta espanhol, criador do estilo e influência clara na obra de Gregório de Matos. Observe no poema, o jogo de palavras, construído a partir de Pecar e Perdoar e seus cognatos e seus sinônimos.

 

02- Aspectos discursivos da poesia barroca:

Poema lírico, em que o eu poético revela sentimentos de pecado e de arrependimento, temática religiosa, típica da poesia barroca, marcada pelo conflito, pela angústia, traduzidos aqui na antítese Pecado/Perdão.

Conceptismo, jogo de ideias, a outra linha da Literatura barroca, conhecida como Quevedismo, criada pelo Pe. Quevedo, também espanhol. O autor constrói o Conceptismo recorrendo ao Silogismo, processo de raciocínio consagrado por Aristóteles, portanto clássico. O Silogismo consiste no confronto entre a Premissa maior/o eu-lírico assume que pecou com intensidade, e a Premissa menor/o eu-lírico recorre à parábola bíblica da ovelha desgarrada, e a Conclusão/Cristo irá perdoar o eu-lírico, porque assim como o Pastor se ocupa da Ovelha desgarrada, o Senhor tem de se preocupar com quem peca.

– Há da parte do eu-lírico a intenção de jogar para obter o perdão, em chantagem explícita. Primeiro por recorrer a Cristo/”Ninguém vai ao Pai senão por mim.”, segundo por usar como argumento para seu perdão as palavras de Jesus: Lucas 15, 1 a 6: Todos os publicanos e pecadores estavam se reunindo para ouvi-lo. Mas os fariseus e os mestres da lei o criticavam: “Este homem recebe pecadores e come com eles”. Então Jesus lhes contou esta parábola: “Qual de vocês que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma, não deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da ovelha perdida, até encontrá-la? E quando a encontra, coloca-a alegremente nos ombros e vai para casa. Ao chegar, reúne seus amigos e vizinhos e diz: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha perdida’. Não há saída para o Senhor a não ser perdoar.

 

 – Barroco – Características

Arte do conflito: o ser humano dividido entre o apelo espiritual, religioso e místico da Idade Média e o apelo material humanista, racional do Renascimento. Visão dualista da vida, fé/razão. Por isso o uso intenso de antíteses e paradoxos.

Fugacidade da vida: a certeza de que no mundo tudo é passageiro e instável se acentua no Barroco, e a consciência do caráter efêmero da existência intensifica a angústia, o medo, o conflito entre o desejo de aproveitar a vida e o medo de perder a salvação eterna. A presença de hipérboles justifica a intensidade das emoções do artista barroco.

Visão pessimista, trágica da vida, marcada por um desencantamento com o indivíduo e com o mundo.

Mau gosto: a morbidez, atração pelo trágico, leva o artista barroco a evidenciar imagens fortes, cenas trágicas, dolorosos, rompendo com a harmonia e a sobriedade clássica. É comum a recorrência á sinestesia para construir o painel grotesco e acentuar a visão trágica, apelando aos sentidos do leitor, do espectador.

Linguagem rebuscada, elaborada, retorcida, predomínio da ordem inversa da oração – com uso frequente de hipérbato.

Figuração intensa: metáforas, sinestesias, antíteses, paradoxos, hipérbatos.

– As correntes da  Literatura barroca:

– Cultismo: consiste no jogo de palavras, privilegiando a forma, a estrutura do texto, o que se justifica porque a temática barroca é limitada praticamente ao conflito religioso. A construção do texto evidencia a mensagem, a função poética da linguagem, pela figuração intensa, utilizando-se de metáfora, sinestesia, paradoxo e antítese (marcas do conflito), hipérbole (marca da intensidade), hipérbato/inversão. Observe estes aspectos no poema:

 

Ao primeiro braço, que depois apareceu do mesmo menino Jesus quando desapareceu do corpo.

O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte;

Mas se a parte fez todo, sendo parte,

Não se diga que é parte, sendo todo.

 

Em todo o sacramento está Deus todo,

E todo assiste inteiro em qualquer parte;

E feito em partes todo, em toda a parte

Em qualquer parte sempre fica todo.

 

O braço de Jesus não seja parte,

Pois que feito Jesus em partes todo,

Assiste cada parte em sua parte.

 

Não se sabendo parte deste todo

Um braço que lhe acharam sendo parte,

Nos diz as partes todas deste todo.

 

Gregório de Matos

 

– Conceptismo: consiste no jogo de ideias, no desenvolvimento de raciocínios religiosos e/ou filosóficos, usando o método aristotélico do silogismo. O silogismo consiste em contrapor dois conceitos – denominados premissa maior e premissa menor – para chegar à conclusão. O exemplo básico de Aristóteles:

– Premissa maior: Todo homem é mortal.

– Premissa menor: Sócrates é homem.

– Conclusão: Logo Sócrates é mortal.

Observe o Conceptismo no fragmento do Sermão do Mandato, do Pe. Antônio Vieira:

PREMISSA MAIOR:

O primeiro remédio que dizíamos é o tempo. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.

PREMISSA MAIOR:

Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas.

CONCLUSÂO:

Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira, embota-lhe as setas, com que já não fere, abre-lhe os olhos, com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta- se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.

 

No Barroco em Língua Portuguesa, a poesia de Gregório de Matos é predominantemente cultista, e os sermões do Pe. Antônio Vieira, conceptistas. O Conceptismo não exclui o Cultismo: o jogo de ideias sempre é feito usando o jogo de palavras, como se o fragmento do Sermão do Mandato do Pe. Vieira exemplifica:

 

– Barroco no Brasil: contexto

Brasil colonial

Bahia século XVII – John Ogilby

Esta é uma versão colorizada, de John Ogilby, da ilustraçãoUrbs Salvador, publicada em 1671, na obra de Arnoldus Montanus. É uma ilustração de domínio público. Disponível em http://www.bahia-turismo.com/salvador/seculo-17.htm

 

O Barroco é a primeira manifestação artística da América Latina. A colonização representou, principalmente no Brasil, processo de caráter masculino, desprovido do núcleo da família, e cujo objetivo era o de enriquecer e retornar à metrópole. Também observou-se a mistura de elementos culturais distintos, de origens diversificadas. Nosso sincretismo tem como pontos iniciais o Catolicismo da Companhia de Jesus, empenhada em cristianizar o Novo Mundo, e a cultura nativa, totalmente alheia à ideologia judaico-cristã. Entre essas duas, o colonizador, figura marginal, oriunda de categorias sociais populares em Portugal, quase todos da plebe, sem formação religiosa rigorosa.

O desenvolvimento da cultura de cana e de tabaco no Nordeste provocou, porém, o povoamento e a formação da sociedade local. Neste processo, a figura do negro foi fundamental. O escravo africano chegou aqui como mão de obra, já que os jesuítas não aprovaram a escravização dos índios, mas em função da ausência de mulheres europeias e da rejeição recíproca observada entre os homens brancos e as mulheres nativas, a união entre o português e a negra tornou-se a mais comum na colônia, principalmente na Bahia. Essa união, condenada a princípio pela Igreja, mas irreversível, representou o início de uma sociedade mestiça, sincrética, entre o eurocentrismo e a cultura africana, o que se tornou, no decorrer de nosso processo histórico a marca distintiva do povo brasileiro.

O Barroco surgiu no início do século XVII, em Pernambuco, com a obra Prosopopeia, de Bento Teixeira, mas desenvolveu-se em Salvador, sobre forte influência da Companhia de Jesus, interessada em doutrinar a colônia e fazer com que os portugueses e africanos que para cá vieram seguissem os princípios religiosos. A radicalização da Igreja católica, tanto na Europa como no Brasil, gerou um momento de tensão, de conflito, de angústia, que marcam a arte barroca tanto em seu discurso quanto em sua estrutura. No Brasil, a intensidade do conflito se deveu à influência dos jesuítas contrapondo-se ao processo de miscigenação cultural, considerado a princípio uma relação pecaminosa, que produzia, portanto, peso de consciência.

 

Veja como o principal poeta do período via a sociedade em que se desenvolveu o Barroco:

 

Que falta nesta cidade?……………………………..Verdade

Que mais por sua desonra …………………………Honra

Falta mais que se lhe ponha ………………………Vergonha.

O demo a viver se exponha,

por mais que a fama a exalta,

numa cidade, onde falta

Verdade, Honra, Vergonha.

 

Quem a pôs neste socrócio?………………………… Negócio

Quem causa tal perdição? ………………………….. Ambição

E o maior desta loucura?……………………………. Usura.

Notável desaventura

de um povo néscio, e sandeu,

que não sabe, que o perdeu

Negócio, Ambição, Usura.

 

Quais são os seus doces objetos?………………….. Pretos

Tem outros bens mais maciços?…………………… Mestiços

Quais destes lhe são mais gratos?…………………. Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,

dou ao demo a gente asnal,

que estima por cabedal

Pretos, Mestiços, Mulatos.

 

Quem faz os círios mesquinhos?……………………. Meirinhos

Quem faz as farinhas tardas? ………………………….Guardas

Quem as tem nos aposentos? ……………………….. Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,

e a terra fica esfaimando,

porque os vão atravessando

Meirinhos, Guardas, Sargentos.

 

E que justiça a resguarda? ………………………….. Bastarda

É grátis distribuída? ………………………………….. Vendida

Que tem, que a todos assusta?………………………. Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,

o que El-Rei nos dá de graça,

que anda a justiça na praça

Bastarda, Vendida, Injusta.

 

Que vai pela clerezia? …………………………………. Simonia

E pelos membros da Igreja? ……………………….. Inveja

Cuidei, que mais se lhe punha?……………………. Unha.

Sazonada caramunha!

enfim que na Santa Sé

o que se pratica, é

Simonia, Inveja, Unha.

 

E nos Frades há manqueiras?……………………… Freiras

Em que ocupam os serões? ………………………… Sermões

Não se ocupam em disputas?………………………. Putas.

Com palavras dissolutas

me concluis na verdade,

que as lidas todas de um Frade

são Freiras, Sermões, e Putas.

 

O açúcar já se acabou?………………………………. Baixou

E o dinheiro se extinguiu?…………………………. Subiu

Logo já convalesceu? …………………………………… Morreu.

À Bahia aconteceu

o que a um doente acontece,

cai na cama, o mal lhe cresce,

Baixou, Subiu, e Morreu.

 

A Câmara não acode?…………………………………. Não pode

Pois não tem todo o poder?………………………… Não quer

É que o governo a convence? ………….,…………. Não vence.

Quem haverá que tal pense,

que uma Câmara tão nobre

por ver-se mísera, e pobre

Não pode, não quer, não vence.

 

Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br

 

– Gregório de Matos constrói o poema usando o processo de disseminação e recolho – as palavras que terminam os versos de uma estrofe encerram a estrofe seguinte. O poema reflete as características fundamentais da poesia barroca, alternando em sua estrutura a medida nova/o decassílabo dos tercetos e a medida velha/a redondilha dos quartetos. A particularidade da linguagem em que a presença do rebuscamento, da linguagem erudita, intercalam-se com vocábulos típicos da Língua Portuguesa do Brasil, vulgar à época. O painel social, crítico, ácido, que o eu poético constrói da sociedade/ onde falta Verdade, Honra, Vergonha, representando com crítica, ironia, todos os elementos da cidade da Bahia-Salvador, marca da poesia satírica do autor, inconformado com a pobreza de espírito de seu mundo.

 

– Poesia Barroca no Brasil – Gregório de Matos – O Boca do Inferno

   

Gregório de Matos Guerra  (Salvador, 23 de dezembro de 1636 — Recife, 26 de novembro de 1695), principal poeta do Barroco em Língua Portuguesa, contraditório, espírito irrequieto, polêmico, provocador e oportunista, como o  movimento literário a que ele pertence.

Sua biografia mistura realidade e lenda, histórias que se tornaram famosas pela boca do povo. De família abastada, fez os estudos regulares na Bahia e formou-se Doutor em Leis em Coimbra. Em Portugal, casou-se a primeira vez, foi juiz de fora, enviuvou, entrou na vida religiosa, em ordens menores.

Voltando ao Brasil, foi tesoureiro da Sé, na cidade da Bahia, acabou expulso, por negar-se a usar batina, não acatar ordens de seus superiores e levar vida boêmia, mundana. Casou-se pela segunda vez com D. Maria dos Povos.

Sua vida desregrada, sua língua afiada, valeu a ele o apelido de Boca do Inferno e muitos inimigos poderosos. Por ter a vida ameaçada, foi para o degredo em Angola, onde ajudou o governo local a dominar uma conspiração, sendo lhe concedido o direito de voltar ao Brasil, com a condição de viver em Recife onde morreu.

 

 – Gregório de Matos – Obra analisada

 

– Poesia Lírica Religiosa: a visão antitética do Eu que peca e Deus que perdoa

 

– Observe que, no poema a seguir, a atitude do poeta reflete humildade e forte desejo de salvação

 

A Nosso Senhor Jesus Christo Com Actos de Arrependido e Suspiros de Amor

Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,

É verdade, meu Deus, que hei delinquido,

Delinquido vos tenho, e ofendido,

Ofendido vos tem minha maldade.

 

Maldade, que encaminha à vaidade,

Vaidade, que todo me há vencido;

Vencido quero ver-me, e arrependido,

Arrependido a tanta enormidade.

 

Arrependido estou de coração,

De coração vos busco, dai-me os braços,

Abraços, que me rendem vossa luz.

 

Luz, que claro me mostra a salvação,

A salvação pretendo em tais abraços,

Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.

 

Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br

– No poema, além dos recursos comuns da linguagem barroca, o poeta recorre à catáfora – ou como figura de linguagem anadiplose – que consiste em iniciar um verso ou uma oração com o termo que encera o/a período ou oração anterior.

– A antítese é a figura de linguagem básica na construção do soneto: Eu que peca/ofendi-vos, Meu Deus… x Jesus Cristo que salva/Amor, Jesus, Jesus. O eu-lírico assume que pecou e recorre a Cristo, para obter o perdão; “ninguém vai ao Pai senão por mim”. Ao contrário de outras circunstâncias, neste soneto, o eu-lírico se coloca em condição de humildade, desespero, esperando o perdão.

– Predomina no soneto o Cultismo, o jogo de palavras, estabelecido pela incidência das antíteses representativas do pecado assumido e do perdão pretendido.

 

– Poesia Lírica Filosófica: se é belo, por que breve; se breve, por que belo?

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da Luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria.

 

Porém se acaba o Sol, por que nascia?

Se formosa a Luz é, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?

 

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,

Na formosura não se dê constância,

E na alegria sinta-se tristeza.

 

Começa o mundo enfim pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza

A firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br

– O poema, pertencente à linha reflexiva, filosófica de Gregório de Matos, revela, além dos aspectos já estudados anteriormente, o jogo de palavras/Cultismo, construído de forma impecável pelas imagens paradoxais: Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Luz/noite, tristes sombras/formosuras, tristezas/alegria. Este jogo inicia-se com o paradoxo do primeiro verso, intensifica-se com as interrogações da segunda estrofe, para representar a angústia do artista barroco com a brevidade/efemeridade/fugacidade da vida.

– A terceira estrofe introduz o contraponto/a premissa menor, o questionamento da fugacidade do Sol, da Luz, a inconstância de sua formosura, a falta de firmeza, nada é para sempre. A última estrofe fecha o raciocínio da poesia filosófica do Barroco, a conclusão do silogismo, o mundo/a vida se inicia na ignorância, na ausência de conhecimento, e em seu curso/sua natureza, a única coisa certa é que tudo acaba, tudo é fugaz/efêmero. Isso gera o sentimento contraditório da poesia reflexiva do Barroco. Se por um lado o artista tem consciência da fugacidade da vida, deseja o carpe diem/colha o dia, ele é breve, por outro teme perder a salvação da alma, cair nas sombras eternas.

– Neste soneto, como no próximo, a exploração dos campos sensoriais/sinestesia produz o efeito de sentido relacionado ao apego do eu-lírico ao mundo material, olfativo, tátil, visual. Observe, no poema a seguir (em que há disseminação e recolho), como o eu-lírico deseja/valoriza as belezas terrenas, para depois negá-las, reconhecendo sua fragilidade.

Desenganos da vida humana, metaforicamente

É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?

Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br

O poema, como o anterior e em toda a poesia reflexiva/filosófica de Gregório de Matos, a exploração dos campos sensoriais/sinestesia produz o efeito de sentido relacionado ao apego do eu-lírico ao mundo material, olfativo, tátil, visual. Observe como o eu-lírico deseja/valoriza as belezas terrenas, para depois negá-las, reconhecendo sua fragilidade. Para tal raciocínio, Gregório de Matos recorre ao processo de disseminação e recolho.

 

– Poesia Lírica Amorosa: A visão paradoxal do Amor e da Mulher

Anjo no nome, Angélica na cara

 

Anjo no nome, Angélica na cara

Isso é ser flor, e Anjo juntamente

Ser Angélica flor, e Anjo florente

Em quem, se não em vós se uniformara?

 

Quem veria uma flor, que a não cortara

De verde pé, de rama florescente?

E quem um Anjo vira tão luzente

Que por seu Deus, o não idolatrara?

 

Se como Anjo sois dos meus altares

Fôreis o meu custódio, e minha guarda

Livrara eu de diabólicos azares

 

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda

Posto que os Anjos nunca dão pesares

Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda

 

Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br

– Este é um dos mais representativos sonetos de temática amorosa do poeta. Como a maioria de seus textos, este também reflete uma circunstância de sua vida, o namoro com D. Ângela, não concretizado.

– A primeira estrofe inicia o jogo de palavras, que tem como base as metáforas Anjo e Flor, definidoras da pureza/Anjo e da sensualidade/Flor de amada, constituindo, pois, um paradoxo, isto é Cultismo. A mulher é pura, seu semblante é angelical, revelando-se ao mesmo tempo sensual. O que a princípio não parece problema.

– A segunda estrofe reafirma a ideia da primeira. O eu-lírico deslumbra-se com a possibilidade do carpe diem/quem não colheria aquela flor/quem não idolatraria aquele Anjo?

– Na terceira estrofe, aparece o dilema característico do Barroco. A conjunção condicional SE coloca em dúvida todo o esplendor da figura feminina e questiona a sua condição de Anjo, contradição essa confirmada na última estrofe, iniciada com a conjunção adversativa MAS.

– A conclusão do poema nega a ideia inicial de Amor e de Mulher, nega o desejo do eu-lírico de colher a beleza da amada, porque esta na verdade parece Anjo, mas não é; Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda, o paradoxo final.

– Observe a visão contraditória, paradoxal do poeta barroco, marca de toda a poesia amorosa do período, em que o homem tem medo da beleza feminina, da figura da mulher, como o elemento causador da perdição de sua alma.

 

Ardor em firme coração nascido

Ardor em firme coração nascido!

Pranto por belos olhos derramado!

Incêndio em mares de água disfarçado!

Rio de neve em fogo convertido!

 

Tu, que em um peito abrasas escondido

Tu, que em um rosto corres desatado,

Quando fogo em cristais aprisionado,

Quando cristal em chamas derretido.

 

Se és fogo como passas brandamente?

Se és neve, como queimas com porfia?

Mas ai! Que andou Amor em ti prudente.

 

Pois para temperar a tirania,

Como quis, que aqui fosse a neve ardente,

Permitiu, parecesse a chama fria.

Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br

 

– No soneto, o eu-lírico representa, pela sinestesia, as sensações provocadas pela pessoa amada/desejada, fogo/abrasas/pranto/neve/cristais. Representa, pelas hipérboles, o desejo intenso, a vontade de amar.

– Os paradoxos refletem a visão contraditória do sentimento e da pessoa amada, ao mesmo tempo provocativos, tentadores, mas dissimulados, ocultos: incêndio em mares de água disfarçado/rio de neve em fogo convertido/ Tu, que em um peito abrasas escondido/ Se és fogo como passas brandamente?/Se és neve, como queimas com porfia?. O eu-lírico reconhece o poder do Amor intenso, sente seu domínio, no desfecho do poema, a partir do último verso do primeiro terceto.

 

– Gregório de Matos – Poesia Satírica: o painel crítico da Bahia seiscentista

De dous ff se compõe

Esta cidade ao meu ver

um furtar, outro foder.

 

À cidade da Bahia

 

A cada canto um grande conselheiro

Que nos quer governar cabana e vinha;

Não sabem governar sua cozinha

E podem governar o mundo inteiro.

 

Em cada porta um bem frequente olheiro

Que a vida do vizinho e da vizinha

Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha

Para o levar à praça e ao terreiro.

 

Muitos mulatos desavergonhados,

Trazidos sob os pés os homens nobres,

Posta nas palmas toda a picardia,

 

Estupendas usuras nos mercados,

Todos os que não furtam muito pobres:

E eis aqui a cidade da Bahia.

 

Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br


Romance

 

Senhora Dona Bahia,

nobre e opulenta cidade,

madrasta dos Naturais,

e dos Estrangeiros madre.

Dizei-me por vida vossa,

em que fundais o ditame

de exaltar os que aí vêm,

e abater os que ali nascem?

Se o fazeis pelo interesse,

de que os estranhos vos gabem,

isso os Paisanos fariam

com duplicadas vantagens.

E suposto que os louvores

em boca própria não cabem,

se tem força esta sentença,

mor força terá a verdade.

O certo é, Pátria minha,

que fostes terra de alarves,

e inda os ressábios vos duram

desse tempo, e dessa idade.

(…)

 Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br

– O poeta revela pleno domínio das formas poéticas e da linguagem, pois recorre ao modelo clássico do soneto em versos decassílabos e à forma medieval do romance em redondilhas, utiliza a Língua Padrão e as marcas da oralidade da Língua brasileira. O que era vulgar para a época, o uso de formas poéticas não clássicas e de marcas da oralidade, é hoje atitude reconhecidamente inovadora, porque antecipou o Modernismo.

– Gregório de Matos constrói o painel crítico e ácido da sociedade de que ele fazia parte. No soneto, o eu-lírico debocha dos governantes/arrogantes e incompetentes, dos indivíduos comuns/vizinho e vizinha fofoqueiros, dos mulatos desavergonhados (o autor era extremamente preconceituoso, como qualquer filho da elite da época), dos comerciantes/usuras nos mercados, os que não furtam são muito pobres. No romance, a crítica à Bahia/rica, porém madrasta dos baianos e mãe dos estrangeiros. Observe a atualidade das críticas, pois vários comportamentos do século XVII por Gregório de Matos permanecem em nossa contemporaneidade.

 

– Observe a acidez do poeta nos fragmentos a seguir:

 

10 – Aos principais da Bahia chamados caramurus

Um calção de pindoba a meia zorra

Camisa de urucu, mantéu de arara,

Em lugar de cotó, arco, e taquara,

Penacho de guarás em vez de gorra.

 

Furado o beiço, e sem temer que morra

O pai, que lho envazou cuma titara,

Porém a Mãe a pedra lhe aplicara

por reprimir-lhe o sangue que não corra,

 

Alarve sem razão, bruto sem fé,

Sem mais leis, que as do gosto, quando erra,

De Paiaiá tornou-se em Abaeté.

 

Não sei onde acabou, ou em que guerra,

Só sei que deste Adão de Massapé,

Procedem os fidalgos desta terra.

– Nestes versos, o poeta destila todo seu preconceito contra os brasileiros, os nativos denominados, na época, pejorativamente de caramurus. O eu poético caracteriza o indivíduo como um índio tosco, rude, bruto sem fé, para no final defini-lo como o fidalgo/o pretenso nobre da Bahia/do Brasil. Ao ironizar a elite de sua sociedade, Gregório de Matos justifica o apelido de Boca do Inferno. 

20 – Aos vícios

O néscio, o ignorante, o inexperto

Que não elege o bom, nem mau reprova

Por tudo passa deslumbrado e incerto.

 

E quando vê talvez na doce trova

Louvado o bem e o mal vituperado

A tudo faz focinho, e nada aprova.

 

Diz logo prudentaço e repousado:

-Fulano é um satírico, é um louco,

De língua má, de coração danado

 

Néscio, se disso entendes nada ou pouco,

Como mofas com riso e algazaras

Musas, que estimo ter, quando as invoco.

 

Se souberas falar, também falaras

Também satirizaras, se souberas

E se foras poeta, poetizaras

Considere o sentido do adjetivo néscio/ignorante, para a compreensão dos versos. O eu poético ironiza o pretensioso/néscio que por não ser experto, nada aprova, nada entende. O poeta questiona o indivíduo comum, incapaz de criar, de compreender a criação, portanto depreciador da Arte. Evidencia-se aqui, portanto, a metalinguagem.

 

A ignorância dos homens destas eras

Sisudos faz ser uns, outros prudentes,

Que a mudez canoniza bestas-feras.

 

Há bons, por não poder ser insolentes,

Outros há comedidos de medrosos,

Não mordem outros não, por não ter dentes.

 

Quantos há, que os telhados têm vidrosos,

E deixam de atirar sua pedrada

De sua mesma telha receosos.

 

Uma só natureza nos foi dada:

Não criou Deus os naturais diversos,

Um só Adão formou, e esse de nada.

 

Todos somos ruins, todos perversos,

Só nos distingue o vício, e a virtude,

De que uns são comensais, outros adversos.

 

Quem maior a tiver, do que eu ter pude,

Esse só me censure, esse me note,

calem-se os mais, chitom, e haja saúde

– Na sequência dos versos, o eu poético assume postura moralizante, questionando o comportamento humano, cuja ignorância silencia as pessoas e produz bestas. Questiona os dissimulados, os medrosos, os hipócritas, para justificar que são imperfeições humanas, já que Deus nos fez iguais. A conclusão dos versos remete à virtude que poucos possuem e se houver alguém mais virtuoso que o poeta, que o condene, porém se não for: chitom/silêncio/cale-se. Como grande parte da poesia satírica do poeta, os versos acima iniciam em tom de deboche e terminam em tom de moralização.

Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br

 

– A atualidade da crítica do Boca do Inferno

– Leia os poemas, observando a intertextualidade do soneto do barroco Gregório de Matos e a letra do contemporâneo Caetano Veloso, para ratificar a contemporaneidade da poesia do Boca do Inferno.

Triste Bahia

 

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante

Estás e estou do nosso antigo estado!

Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,

Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

 

A ti trocou-te a máquina mercante,

Que em tua larga barra tem entrado,

A mim foi-me trocando, e tem trocado,

Tanto negócio e tanto negociante.

 

Deste em dar tanto açúcar excelente

Pelas drogas inúteis, que abelhuda

Simples aceitas do sagaz Brichote.

 

Oh se quisera Deus que de repente

Um dia amanheceras tão sisuda

Que fora de algodão o teu capote!

 

Gregório de Matos, disponível em http://www.dominiopublico.gov.br

 

Triste Bahia

Triste Bahia, oh, quão dessemelhante…
Estás e estou do nosso antigo estado
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado
Rico te vejo eu, já tu a mim abundante
Triste Bahia, oh, quão dessemelhante
A ti tocou-te a máquina mercante
Quem tua larga barra tem entrado
A mim vem me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante

Triste, oh, quão dessemelhante, triste
Pastinha já foi à África
Pastinha já foi à África
Pra mostrar capoeira do Brasil
Eu já vivo tão cansado
De viver aqui na Terra

Minha mãe, eu vou pra lua
Eu mais a minha mulher
Vamos fazer um ranchinho
Tudo feito de sapê, minha mãe eu vou pra lua
E seja o que Deus quiser

Triste, oh, quão dessemelhante
ê, ô, galo canta
O galo cantou, camará
ê, cocorocô, ê cocorocô, camará
ê, vamo-nos embora, ê vamo-nos embora camará
ê, pelo mundo afora, ê pelo mundo afora camará
ê, triste Bahia, ê, triste Bahia, camará
Bandeira branca enfiada em pau forte…

Afoxé leî, leî, leô…
Bandeira branca, bandeira branca enfiada em pau forte…
O vapor da cachoeira não navega mais no mar…
Triste Recôncavo, oh, quão dessemelhante
Maria pé no mato é hora…
Arriba a saia e vamo-nos embora…
Pé dentro, pé fora, quem tiver pé pequeno vai embora…

Oh, virgem mãe puríssima…
Bandeira branca enfiada em pau forte…
Trago no peito a estrela do norte
Bandeira branca enfiada em pau forte…
Bandeira…

Caetano Veloso, disponível em http://letras.mus.br/caetano-veloso

 – No soneto, Gregório de Matos lamenta o estado de sua cidade, outrora rica, agora pobre. Há a personificação da cidade, por o eu-lírico se identificar com sua condição/a ti trocou-te e a mim foi me trocando. A condição de miséria da cidade se deve ao fato de ela se dar ao estrangeiro/brichote. O desfecho do poema possui teor moralizante, já que o poeta propõe como saída o retorno da cidade á condição de humildade, desejando – por Deus! – vê-la em simples capote de algodão, desprovida da sedutora seda.

– Gravado integralmente em Londres, em1972, Transa é o terceiro trabalho solo de Caetano Veloso. Marcante pela mistura de ritmos e de referências culturais e literárias, o disco traz em Triste Bahia uma analogia do compositor com o Boca do Inferno – ambos perseguidos. Na letra, Caetano Veloso destaca aspectos culturais –  Mestre Pastinha, responsável pela difusão da capoeira na África e perseguido pelos militares – musicais  e literárias – para lamentar a perda da identidade de sua terra.

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